quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Democracia: sinônimo de liberdade. Será?

Uma porrada de circunstâncias justificam a necessidade de uma autoridade nos tempos atuais, seja ela democrática ou totalitária. Tudo bem, eu nem discordo tanto desse argumento: nunca tive muita vocação para o anarquismo, uma vez que os próprios anarquistas divergem sobre como funcionaria uma sociedade sem governo. Mas o que eu acho um absurdo, nos modelos conhecidos, é a forma como essas instituídas autoridades se relacionam com o povo. Até mesmo na democracia.

Muita gente acha que devemos discordar apenas dos regimes totalitários e de ditadores, que acabam fazendo às vezes de uma monarquia hereditária. E alguns ditadores levam isso tão a sério que acham que tudo bem mandar o próprio exército sair atirando naqueles corajosos (mas nem sempre sensatos) que resolvem protestar, iniciando aí uma verdadeira guerra civil, que já vimos dizimar inúmeras economias mundo a fora. Está aí as centenas de crianças morrendo de fome na Somália – o resultado de anos de uma guerra civil que, mesmo tendo atingido um impasse notório, continua matando seres humanos todos os dias – que não me deixa mentir.

Até mesmo a Rússia ainda não se livrou totalmente dos sintomas terríveis de uma guerra civil que ganhou força com um exército de desertores, posteriormente batizado de exército vermelho, que acabou emplacando uma revolução que nada mais fez do que substituir um regime totalitário por outro. Se até mesmo Lênin, um antigo herói nacional, deixou o poder subir à cabeça, por que devemos acreditar que o filho mimado de grandes ditadores que fazem jus até mesmo ao czar russo estaria isento da sede de poder?

Mesmo com todas essas experiências que nem datam de tempos tão antigos assim (avôs de muitos russos provavelmente nasceram no auge da revolução), em muitos lugares, observamos que a humanidade continua insistindo no erro. E o que mais me deixa abismada é ver que os erros que geraram conseqüências tão drásticas e sem sentido, como foi a primeira guerra mundial, parecem se repetir ainda hoje.

Vejam a Síria, a Líbia, brincando de czar enquanto os países vizinhos assumem as dores, dão ultimatos e mobilizam seus exércitos. Por favor, já vimos esse filme antes. Pergunte para as mães e esposas de milhares de soldados que padeceram na batalha do Somme o que elas acham de entrar na guerra em defesa de países aliados? Pergunte para os alemães que morreram de fome e para as aristocratas que trocaram os teatros pelos cabarés o que eles acham de tratados de paz, como o grande fiasco da humanidade, digo, tratado de Versallhes?

Muita gente pode usar um argumento chave agora, me lembrando que muitos países entram em guerra não porque essa seja a vontade do povo, mas sim a vontade de uma minoria que toma decisões políticas – autoridades nem sempre eleitas de forma democrática, como o líder Israelense que, enquanto eu escrevo esse desabafo, está mobilizando suas tropas para lutarem na Síria, na Líbia, na Fixa de Gaza e na capital contra os manifestantes que clamam por justiça e democracia.

O que observamos até agora é que, após grandes guerras, em geral, há uma grande onda revolucionária. E vice e versa. Mas tudo isso só mostra que muitas pessoas morreram – e continuam morrendo - em nome de uma democracia. E quem sou eu, uma fedelha de 22 anos que nunca viu o irmão morrer por falar o que pensa, nunca virou a noite na fila de uma padaria para trocar o salário semanal por apenas um único pão, que nunca sequer esteve sob a mira de um revólver como todos aqueles que lutaram por um regime melhor, questionar o regime conquistado, que é essa tal de democracia? Ou então como eu, sendo jornalista, ouso questionar um regime que, em tese, garante a liberdade de expressão?

Sabe, a democracia até que casa com os meus interesses. Acredito que uma pessoa tem que ter o direito de exercer cargos coerentes com sua inteligência, e não com o seu berço, e que o Estado deve ao menos tentar garantir que essa competição seja o mais justa possível. Mas também acredito que uma pessoa que fez conquistas financeiras por méritos próprios possam facilitar o surgimento de oportunidades para os seus herdeiros, investindo mais em educação, blá blá blá. Melhoria da espécie. E a democracia inserida num regime capitalista permite tudo isso. Então do que é que eu estou reclamando? Por que tento desacreditar a democracia?

Restringindo agora o regime democrático ao Brasil, acredito nele sim, mas acho que os brasileiros não foram preparados para recebê-lo. É um regime arriscado, que usa um disfarce liberal enquanto instaura um poder centralizado. Quem é que não está cansado de ver grandes figurões com históricos terrivelmente podres continuarem circulando no congresso? O povo foi às ruas uma vez. O povo tirou o Collor. E o Collor voltou para o poder.

Por essas e outras razões, acredito que a democracia só funciona se instaurada em um povo que se faça ser visto como povo, e não como eleitores. O voto é a principal arma da população, mas deixa de ser arma quando é manipulado por quem deveria estar na mira, e não puxando o gatilho. Nem sempre o que é melhor para o eleitor é também o que é melhor para o país. Mas é o eleitor que dá o poder, e não as políticas de longo prazo. E a democracia permite que as pessoas se candidatem para estar no poder. Agora, como alguém que quer estar no poder é de fato o melhor para a população?

Baseado nisso, acredito que a democracia, instaurada em um povo que não está preparado para tal, sustenta os interesses de uma minoria enquanto manipula as armas dos cidadãos com políticas pobres, caras, mas de soluções irrisórias.

Um exemplo? É piegas demais citar o Bolsa Família? Aposto que muita gente pensou nele. Mas o Bolsa Família é genial e indispensável – porém ineficaz quando não acompanhado de um programa que possa garantir também que os beneficiados conquistem a independência do benefício. Acredito mais em políticas que dêem ferramentas para a pessoa conquistar o pão do quem em políticas que dêem o pão logo de cara. Mas também sei que uma pessoa que está morrendo de fome não consegue desenvolver uma função remunerada. Por isso as duas devem andar juntas, para que o cidadão possa investir em sua qualificação profissional, ou seja, investir em educação, e conquistar uma vida melhor.

Mas em quem o brasileiro que está morrendo de fome vai votar? Em quem garante equilibrar o investimento em educação com os investimentos em ações sociais ou em quem afirme priorizar as ações sociais acima de tudo? Programas sociais fazem uma média imediata com o tal candidato. Políticas de longo prazo, não. Mas se o político olhasse para os cidadãos como povo, e não como eleitores, não se importaria em fazer média e o discurso da ação social viria acompanhado do discurso sobre a importância da qualificação profissional. That’s a dream.

E falando em qualificação profissional, entramos em um outro gargalo da democracia: a política local, cujos programas, com menos visibilidade, permitem ainda mais o sustento da politicagem mascarada de compromisso social, deixando de lado aquelas questõezinhas chatas como desenvolvimento econômico e social.

Exemplo? Se é para se tratar de uma política local, pobre, de grande investimento e de solução irrisória, como é boa parte dos programas sociais que visam o eleitor e não o povo, então vamos pegar a menor Unidade de Federação, o Distrito Federal, e um de seus programas mais recentes, o Qualificopa.

Eu nunca tinha sentido tanta vergonha do meu voto. Eis que, numa belíssima tarde de terça-feira, a voz que clamou aos quatro ventos uma proposta de mudança, nosso governador eleito também pelo meu voto, convoca toda a imprensa para anunciar o nosso bom e velho conhecido: um programa de politicagem social que, ao meu ver, só atrasa o desenvolvimento social.

Com investimento de mais de R$ 10 milhões, o Qualificopa deve oferecer cursos para capacitar, até 2014, 32 mil pessoas no Distrito Federal. Mas não se iluda. São cursos para que as pessoas possam atuar como camareiras, vendedores, garçons, tudo visando que os turistas estrangeiros sejam muito bem recepcionados por aqui.

Ideia bacana. Pelo menos qualifica e gera emprego. NÃO!

Segundo a Secretaria de Trabalho do DF, o mercado de trabalho aqui não é qualificado. Ao contrário do que ocorre no restante do país, aqui, os salários oferecidos nos empregos públicos, em média, superam em até quatro vezes os que são oferecidos pela rede privada. E quase 25% da população é funcionária pública.

Pois bem. Essa parcela, que é uma minoria, no entanto, promove e sustenta um mercado de trabalho desqualificado, como contratações de serviços domésticos, de jardinagem, de salões de beleza e, naturalmente, o salário generoso atrai os olhares de empresários, que constroem suas lojas aqui, empregando operários da construção civil e vendedores ou então fomentando a cultura de bares e restaurantes. Em função disso, o DF é uma das únicas unidades de federação em que a desigualdade social está aumentando em vez de diminuir.

Bom, com esses dados em mãos, o que o nosso governador faz? Pega dinheiro e investe em políticas que contribuem para que o mercado de trabalho continue tendo esse perfil tão prejudicial para o desenvolvimento social. Em seu discurso, ele até fala que se trata de uma grande oportunidade, principalmente para os jovens. Caro doutor Agnelo, não estou desmerecendo as profissões, mas muitas camareiras, garçonetes, empregadas domésticas e vendedoras, assim como a sua mãe, também sonham em ter um filho doutor.

E fico ainda mais frustrada quando vejo o Qualificopa entrando no lugar do Bolsa Universitária, que até hoje nunca foi dada uma explicação para a extinção do programa que levava para a universidade quatro mil jovens por semestre.

Sinceramente. Eu ia gostar muito mais de terminar o meu ensino médio e pisar numa universidade, correr atrás de estágio, do que pisar na recepção de um hotel, ficar atrás de um balcão de vendas ou servir coquetéis para gringos de maneira elegante.

Mas o povo quer emprego. O Agnelo dá emprego. Então vamos votar nele. E viva a democracia que manipula tão facilmente um povo que se considera livre mas, na verdade, vota para a centralização do poder, e não para o desenvolvimento econômico e social.

Sinceramente, acho que não foi para isso que tantos morreram nas grandes revoluções que, embora tenham ocorrido ontem, estão tão esquecidas não só aqui e no oriente médio, mas em todo o mundo, que parece que ocorreram há milhares de anos.




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